bicho
um menino me perguntou
que animal eu seria
como se já não fôssemos
ah mas eu quis dizer bicho
como se também não já
respondi molenga um gato
repensei vou passar falsa imagem
não sofro tanto do desapego sabe
respondi então uma onça
mais pelo mamar na mansa fúria
que pela dourada parecença
melhor eu acho uma jiboia
digestão lenta respiro pesado
abraço carinhoso boitatástico afago
se alguém se encantar pelo mato
esquece de me ver passeando
me deixa em paz sibilando a noite
afinando espiralados instrumentos
o menino responde que queria
ser uma cobra coral do avesso
tipo uma cora cobral pergunto
atiçado pelo bote do menino
ele se pipoca de rir
não me explica o avesso mas
promete
que toda noite
vai tocar o chocalho
na minha orquestra de serpentes
ecdise
é inevitável
o medo de mudar
sabendo que a coisa vai me
transformar
profundamente
sempre dói apesar de
saber que não deveria
assim como
a troca de peles das serpentes
não deveria doer mas
suas novas camadas de couro
tornam o corpuxo delas tão
sensível e delicado que
precisam de um pedaço de
pedra pra se roçar e
amenizar
tamanho incômodo que é
despertar a nova vida
adormecida
à flor da pele
é inevitável
o medo de mudar
sabendo que tal qual
a minha
a pele das serpentes (apesar de brilhosa)
não é úmida mas
pronta sim ESTOU PRONTA grita a pele
estou pronta para a vida dispa-me
deixe-se para trás
bocejo
serpentes não bocejam
quando arregaçam as
mandíbulas
depois de devorar
um bicho
inteirinho
numa bocada só
elas não estão cochilando
sonolentas
apenas rearticulando
os ossos do crânio
se preparando
pra próxima aventura
gastronômica
um jogo de
encaixe tetris lego
refletem
será que
da próxima vez que
eu tentar
abocanhar
o bicho
ele vai ser
grande
o suficiente
pra se esgueirar
da amplitude
da minha
vontade
bote seco
em uma ocasião de bote seco o que geralmente ocorre é uma das três coisas:
1. a cobra errou o bote
encostou na pessoa e somente
arrastou a presa na pele dela
diz-se como a cobra é tonta
2. a cobra inoculou veneno com
uma presa apenas e acabou
não injetando muito
veneno
diz-se como a cobra é banguela
3. a cobra acertou a pessoa com
as duas presas mas por algum motivo
não injetou muito
veneno
diz-se como a cobra é terapeutizada
aplaude-se a cobra
publica-se a cobra
jiboia
por que logo
ela
por que diacho eu disse que queria ser uma
bendita jiboia
porque sim ora foi o que apareceu
precisava de ser feito
esse rastejo
aceito engulo então
minhas cobras
minhas mais de 100 amigas caatingueiras divas
muitas em extinção coitadas praga dos que têm
sede de estar sozinhos no topo da cadeia
ouço me chamarem elas
me dizem inocule o veneno
lembre a terra
as velhas cobras que te pariram
abra a roda pra mais uma
serpente aqui acolá
surucucus caninanas jararacas
salamantas cobras de cipó
cobras verdes cascavéis
falsas ou verdadeiras
todavia inteiras
de frente ou do avesso
cobras corais
coras cobrais
uni-vos
Minibiografia — Igor dos Santos Mota
Nasceu em 2000 e foi criado à beira do açude Jacurici, no Povoado de Bela Vista, em Cansanção-BA. É professor-poeta-tradutor e doutorando em educação na Universidade de Derby, Inglaterra. Teve textos publicados, performados e/ou premiados no Brasil, Estados Unidos, Grécia, Índia, Inglaterra, Irlanda e Portugal. É colunista na Ruído Manifesto e faz parte das equipes do Fazia Poesia e do AddVerse.

