,

bicho e outros poemas ✸ igor mota

bicho

um menino me perguntou

que animal eu seria

como se já não fôssemos

ah mas eu quis dizer bicho

como se também não já

respondi molenga      um gato

repensei vou passar falsa imagem

não sofro tanto do desapego sabe 

respondi então      uma onça

mais pelo mamar na mansa fúria

que pela dourada parecença

melhor eu acho       uma jiboia

digestão lenta respiro pesado 

abraço carinhoso boitatástico afago

se alguém se encantar pelo mato

esquece de me ver passeando

me deixa em paz sibilando a noite 

afinando espiralados instrumentos

o menino responde que queria

ser uma cobra coral do avesso

tipo uma cora cobral      pergunto

atiçado pelo bote do menino

ele se pipoca de rir

não me explica o avesso mas

promete 

que toda noite 

vai tocar o chocalho

na minha orquestra de serpentes

ecdise

é inevitável

o medo de mudar

sabendo que a coisa vai me

transformar 

profundamente

sempre dói apesar de 

saber que não deveria

assim como 

a troca de peles das serpentes 

não deveria doer mas

suas novas camadas de couro

tornam o corpuxo delas tão

sensível e delicado que

precisam de um pedaço de

pedra pra se roçar e

amenizar

tamanho incômodo que é 

despertar a nova vida

adormecida

à flor da pele

é inevitável

o medo de mudar

sabendo que tal qual 

a minha

a pele das serpentes (apesar de brilhosa)

não é úmida mas 

pronta sim       ESTOU PRONTA        grita a pele

estou pronta para a vida dispa-me 

deixe-se para trás

bocejo

serpentes não bocejam

quando arregaçam as 

mandíbulas

depois de devorar 

um bicho 

inteirinho

numa bocada só 

elas não estão cochilando 

sonolentas

apenas rearticulando 

os ossos do crânio

se preparando 

pra próxima aventura

gastronômica

um jogo de

encaixe tetris lego

refletem

será que 

da próxima vez que 

eu tentar 

abocanhar 

o bicho 

ele vai ser 

grande 

o suficiente 

pra se esgueirar

da amplitude

da minha 

vontade

bote seco

em uma ocasião de bote seco o que geralmente ocorre é uma das três coisas:

1. a cobra errou o bote

encostou na pessoa e somente

arrastou a presa na pele dela

diz-se como a cobra é tonta

2. a cobra inoculou veneno com 

uma presa apenas e acabou

não injetando muito 

veneno

diz-se como a cobra é banguela

3. a cobra acertou a pessoa com 

as duas presas mas por algum motivo 

não injetou muito 

veneno

diz-se como a cobra é terapeutizada

aplaude-se a cobra

publica-se a cobra

jiboia

por que logo 

ela

por que diacho eu disse que queria ser uma

bendita jiboia

porque sim ora foi o que apareceu

precisava de ser feito 

esse rastejo

aceito engulo então

minhas cobras

minhas mais de 100 amigas caatingueiras divas

muitas em extinção coitadas praga dos que têm

sede de estar sozinhos no topo da cadeia

ouço me chamarem elas

me dizem      inocule      o veneno

lembre a terra

as velhas cobras que te pariram

abra a roda pra mais uma

serpente aqui acolá

surucucus caninanas jararacas

salamantas cobras de cipó

cobras verdes cascavéis

falsas ou verdadeiras 

todavia inteiras

de frente ou do avesso

cobras corais 

coras cobrais

uni-vos


Minibiografia — Igor dos Santos Mota

Nasceu em 2000 e foi criado à beira do açude Jacurici, no Povoado de Bela Vista, em Cansanção-BA. É professor-poeta-tradutor e doutorando em educação na Universidade de Derby, Inglaterra. Teve textos publicados, performados e/ou premiados no Brasil, Estados Unidos, Grécia, Índia, Inglaterra, Irlanda e Portugal. É colunista na Ruído Manifesto e faz parte das equipes do Fazia Poesia e do AddVerse.