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rastejo ✸ gabriel arcano

I.

meu homem me engana 

com seu cheiro de enxofre,

seu sopro sombrio dos becos.

há cavalos dentro da noite:

eles passam e pisoteiam minha angústia 

sem sequer sustentar-me os olhos.

II.

meu homem cozinha pedras, 

com cuidado, costura-me

um corte, um código na cintura

e eu te tateio sob a terra

chupo o mosto dos ossos

de corujas, centopéias e quimeras.

III.

meu homem me diz

que minha boca cede,

que meus dentes se despedem:

meus santos saturados, 

teus anjos amputados 

caindo outra vez

e eu rasgo a rede, a tecelagem,

abro mão da minha coragem 

para ejacular o próprio sangue

no erro que me fez.


Minibiografia — Gabriel Arcano

Nasceu em Goiânia, Goiás. graduando em história na Universidade Federal de Goiás, atua como professor e tem como heroínas Alejandra Pizarnik e Clarice Lispector. Publicou Últimas Poesias (2020) e Das Flores Tardias Quero Apenas os Espinhos (2023) de forma independente e possui poemas e outros textos publicados na revista Ruído Manifesto. Além da escrita, também se expressa por meio das artes visuais, tentando soprar vida à sua poética.