I.
meu homem me engana
com seu cheiro de enxofre,
seu sopro sombrio dos becos.
há cavalos dentro da noite:
eles passam e pisoteiam minha angústia
sem sequer sustentar-me os olhos.
II.
meu homem cozinha pedras,
com cuidado, costura-me
um corte, um código na cintura
e eu te tateio sob a terra
chupo o mosto dos ossos
de corujas, centopéias e quimeras.
III.
meu homem me diz
que minha boca cede,
que meus dentes se despedem:
meus santos saturados,
teus anjos amputados
caindo outra vez
e eu rasgo a rede, a tecelagem,
abro mão da minha coragem
para ejacular o próprio sangue
no erro que me fez.
Minibiografia — Gabriel Arcano
Nasceu em Goiânia, Goiás. graduando em história na Universidade Federal de Goiás, atua como professor e tem como heroínas Alejandra Pizarnik e Clarice Lispector. Publicou Últimas Poesias (2020) e Das Flores Tardias Quero Apenas os Espinhos (2023) de forma independente e possui poemas e outros textos publicados na revista Ruído Manifesto. Além da escrita, também se expressa por meio das artes visuais, tentando soprar vida à sua poética.
